Motocicletas são presença cada vez mais dominante na paisagem das cidades brasileiras (Imagem de wal_172619 por Pixabay)
Na contramão

Motocicletas são grande desafio para mobilidade e saúde pública no Brasil

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O Brasil tem um número cada vez maior de motocicletas. Eram 2,7 milhões de motos em 1998, saltando para para mais de 34,5 milhões em 2024, representando um aumento de mais de 12 vezes na frota de motocicletas em 26 anos. Vários fatores contribuíram para esse crescimento da frota, como a evolução do poder aquisitivo e novas modalidades de trabalho, como o de entregas por aplicativo. Mas esse salto no número de motocicletas tem significado um avanço extraordinário no número de acidentes e de óbitos dos condutores, o que colocou esse veículo no centro de uma grande discussão envolvendo mobilidade nos centros urbanos e a saúde pública. Um enorme desafio para o poder público e para a sociedade civil.

As motos respondem hoje por quase 40% das mortes dos acidentes em transporte terrestre no país, de acordo com o Datasus, 2025. Datasus é a plataforma de dados do Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil. As motos também representam a modalidade de transporte que mais mata no trânsito brasileiro atualmente. As mortes de usuários de motocicleta representavam 3% do total em 1998, e em 2023 já somavam 40% das mortes. Foram 1.047 mortes em 1998 e nada menos que 13.521 em 2023, conforme dados do Datasus. Entre 2005 e 2024, morreram em acidentes de motos no Brasil 212.789 pessoas, e no mesmo período foram registradas mais de 1,8 milhão de internações na rede pública de saúde em função desses acidentes.

Diante de todos esses dados, essa é a conclusão do estudo do IPEA: “Diante das inúmeras fragilidades apontadas, associadas com as estatísticas trágicas de mortalidade de motociclistas em geral, fica claro que as motocicletas não são apropriadas para realização de serviços de transporte de passageiros remunerados, o chamado mototáxi. A expectativa é que com o aumento generalizado desses serviços, principalmente com a entrada dos aplicativos de transporte utilizando motocicletas, as estatísticas de mortalidade e morbidade
poderão piorar ainda mais. Há vários argumentos para a não regulação dos serviços de mototáxis no Brasil. Primeiro, a própria falta de segurança que o veículo oferece aos seus usuários, principalmente ao carona
que anda praticamente solto na parte de trás do veículo, sem qualquer proteção física em caso de
colisão e queda”. E mais:

__ Outro ponto bastante discutido é quanto a dirigibilidade do veículo com duas pessoas. A
direção neste caso se torna mais difícil e, quando não há prática do condutor na manobrabilidade
com pessoa atrás ou do passageiro no ajuste corporal em curvas ou situações de mudança de
direção, há maior probabilidade de ocorrência de quedas ou sinistros. Acrescente-se a isso o fato
de que as motocicletas de baixa cilindrada, predominantes nos serviços de mototáxi,
frequentemente excedem a sua capacidade de carga quando ocupadas por duas pessoas,
comprometendo os seus sistemas de frenagem, amortecimento e direção. É um fator que afeta
acentuadamente a segurança dos usuários.

Diante desse quadro, os autores propõem:

__ Como proposições gerais vale destacar a realização de investimentos significativos e
permanentes em estruturas de gestão e fiscalização de transporte e trânsito, na engenharia de
tráfego, nas infraestruturas viárias de segurança e, sobretudo, na educação de trânsito, com
adoção de campanhas educativas constantes e focadas nos usuários de motocicletas.

E concluem: “Nas cidades grandes, a melhoria do transporte público coletivo também deve ser o foco,
associada com políticas de barateamento desses serviços, além da melhoria dos serviços de táxis
e aplicativos de automóveis. Entende-se ainda que em comunidades, favelas ou regiões com
infraestrutura inadequada para serviços de transporte tradicionais, pode-se considerar a
existência de serviços de mototáxi. Neste caso, deve haver forte fiscalização e controle por parte
do poder público, para evitar que o serviço se expanda para outras regiões”.

Enfim, as motocicletas realmente se tornaram um desafio em termos de mobilidade e saúde pública no país. Tema de um grande debate a ser feito, envolvendo poderes públicos, empresas e sociedade civil.

Um estudo publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), ligado ao governo federal brasileiro, mostrou que, quando se analisa a taxa de mortalidade considerando o tamanho dos municípios,
“observa-se que os municípios de menor porte apresentam as maiores taxas de mortalidade,
enquanto os grandes municípios (com população superior a 1.000.000 de habitantes) apresentam
as menores taxas. Em todos os grupos de tamanho de municípios houve um forte
crescimento da mortalidade desde 1996, seguido de estabilização no período agudo de crise
econômica entre 2015 e 2020. Nos últimos anos a tendência de aumento da mortalidade por
motos voltou em todos os grupos de municípios”, assinala o estudo Mortalidade e morbidade das motocicletas e os riscos da implantação do mototáxi no Brasil, de autoria de Carlos Eduardo de Carvalho Vargas, Carlos Henrique Ribeiro de Carvalho e Erivelton Pires Guedes.

De fato, o estudo foi elaborado considerando a ideia em discussão no Brasil de regularização do serviço de mototáxis, ou seja, de transporte de passageiros por motocicletas. O estudo constatou que as internações de vítimas de acidentes de motocicletas no SUS, ou seja, na rede pública de saúde brasileira, saltaram de 15.614 em 1998 para 165.894 em 2024, ou “mais de 11 vezes o valor inicial, também proporcional ao aumento de frota”. Em 2024, completa o estudo, as internações de vítimas de sinistros, ou acidentes, com motocicleta responderam por cerca de 60% das internações totais, “o que está bem acima das internações com sinistros de automóveis, os quais correspondem a uma frota quase 3 vezes maior do que a de motos”.

“Além dos impactos nos custos hospitalares, as vítimas de sinistros de motocicletas geram
uma forte pressão sobre a rede de leitos hospitalares disponíveis para atendimento da população.
Há notícias frequentes sobre a ocupação superior a 50% dos leitos dos hospitais ortopédicos ou
de atendimentos de emergência comprometidos com vítimas de motocicletas”, prossegue o estudo do IPEA, mostrando o impacto dos acidentes com motocicletas na rede pública de saúde brasileira.

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